Cirurgia feita no HSPE trata pacientes com câncer raro

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Operação dura até 12 horas e é opção de sobrevida a portador da doença

Um tipo de cirurgia criada e abandonada na década de 80 oferece hoje uma chance de sobrevivência para portadores de alguns tipos raros de câncer que atingem o peritônio, membrana que reveste o interior da cavidade abdominal e recobre vários órgãos como intestinos e útero.

Chamada de carcinomatose, esse tipo de câncer limita, em média, a seis meses a vida do paciente. “A cirurgia é de alta complexidade e oferece uma chance de sobrevida ao paciente, por retirar o máximo possível da doença inclusive nos órgãos contaminados”, afirma o médico Francisco Farah, diretor do Serviço de Cirurgia Geral e Oncológica do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE).

Realizada no HSPE, uma das poucas instituições de saúde pública no País cujos médicos dominam a técnica de retirada do peritônio com a preservação dos órgãos, essa cirurgia registra casos de sucesso como a de uma paciente operada há dois anos e meio, hoje com 70 anos.

Com duração de até 12 horas, a cirurgia é considerada de risco e indicada apenas em casos específicos e quando nem a quimioterapia nem a retirada do tumor foram suficientes para barrar o avanço ou recidiva do câncer, explica o cirurgião Raphael di Paula, chefe do Setor de Oncocirurgia.

Antes, nestes casos, só restava aos médicos encaminhar o paciente ao Serviço de Cuidados Paliativos na tentativa de garantir condições dignas de vida aos portadores de doenças terminais.

“O câncer raramente nasce no peritônio. Quando a doença é detectada na membrana que envolve os órgãos é sinal de que o tumor começou em outro lugar do corpo - um dos órgãos próximos, por exemplo, e está se multiplicando”, explica o diretor da Cirurgia Geral e Oncológica.

Ainda segundo ele, dificilmente a quimioterapia dá resultados nesses casos porque o remédio não atinge o peritônio e sim os órgãos próximos, que também podem estar doentes.

O Dr. Farah explica também que a retomada desse tipo de cirurgia se deu a partir do ano 2000 em países como Holanda, França e Itália. “O desenvolvimento de novos exames que detectam e mapeiam tumores com mais precisão e o aparecimento de medicamentos mais eficazes no combate ao câncer tornaram a cirurgia viável. Antes, os riscos eram enormes e os resultados péssimos.” E completa: “hoje, o índice de mortalidade pós-operatória é de 5% a 9%”.

O nível de complexidade da cirurgia é tão alto que após a retirada do peritônio, a equipe de cirurgiões é substituída por especialistas que banham os órgãos que perderam a proteção do peritônio com uma solução quimioterápica por pelo menos uma hora. “O objetivo é evitar a sobrevivência de qualquer célula cancerosa”, salienta o Dr. Raphael di Paula. Após o final do procedimento, os cirurgiões iniciam a sutura da área operada.

De acordo com o Dr. Raphael, o pós-operatório exige cuidados redobrados com pelo menos cinco dias de internação na UTI já que, sem o peritônio, o risco de infecções nos órgãos é muito maior, além de outras complicações clínicas variadas que incluem infecções pulmonares e reação aos quimioterápicos.

Entenda a operação

1- O cirurgião faz o corte e inicia a retirada do peritônio

2- Após a retirada do peritônio, outros médicos dão um banho de quimioterápicos nos órgãos localizados na cavidade de onde foi retirado o peritônio

3- Após aproximadamente uma hora, a equipe original retorna e fecha o corte. O paciente é encaminhado para a UTI.